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Dom Ângelo Frosi

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DOM ÂNGELO FROSI

 

ACONTECIMENTOS BIOGRÁFICOS

 

Abaetetuba (Pará-Brasil), 1º de Maio de 1970: povo em festa

Às oito horas da manhã do dia de hoje sexta-feira, 1º de Maio de 1970, a Praça da Padroeira de nossa cidade de Abaetetuba, dedicada à Imaculada Conceição, está lotada de povo. Todos os habitantes da cidade desejam presenciar a cerimônia nunca vista em suas vidas. Há pessoas saídas muito cedo de casa, acompanhadas pelo clarão da lua, deixando suas residências no interior abaetetubense, como as ilhas e Bahia do Tocantins: algumas pessoas chegam em canoa, outras com meios diversos e muitas a pé, a fim de não perder essa celebração.

Que está acontecendo de tão importante? Acontece a consagração episcopal do Bispo diocesano Ângelo Frosi, nomeado recentemente pelo Papa como novo Administrador e pastor da Prelazia de Abaeté do Tocantins (como é chamada nesse tempo a nossa Diocese). Dom Ângelo é o primeiro sucessor de dom João Gazza, chamado a dirigir a Congregação dos Padres Xaverianos na Itália.

A celebração tem a duração da inteira manhã. Principal celebrante, Bispo consagrante, é o Arcebispo de Belém, dom Alberto Gaudêncio Ramos. Ao seu lado, como é costume da Igreja nessas circunstâncias, estão dom Tadeu Prost, auxiliar de Belém, e dom José Maritáno, Bispo da vizinha Prelazia de Macapá.

Ao redor do novo Bispo, além da sua irmã Maria vinda da Itália, estão numerosos confrades xaverianos e também irmãs xaverianas, presentes em Abaetetuba há vários anos. Não faltam numerosos amigos dos Estados Unidos.

Como se explica tão numeroso povo e representantes de tantos Países longínquos, vindos hoje nesta pequena cidade, recostada à encantadora beira do Rio Tocantins? Quem é dom Ângelo Frosi?

O menino Ângelo, chamado “Lino”

Ângelo Guilherme Frosi nasceu a San Bassano, cidadezinha da extensa planície padana do Norte da Itália, na província de Cremona, dia 31 de Janeiro de 1924. O pai chamava-se Alfredo e a mãe Éster. Dois anos mais tarde os pais serão alegrados com o nascimento de uma filha, a Maria, a irmã que terá tanta parte na vida do irmão.

Simplicidade, modéstia, sinceridade de relações e grande senso de fraternidade caracterizam o ambiente familiar, desejado e perseguido pelos pais que se deixam educar por um profundo espírito de fé cristã, constantemente adquirida pelo pai na igreja paroquial, que se encontra em frente à sua humilde casinha e da qual Alfredo é sacristão; e pela mãe que fala de Deus a todas as pessoas que tem a oportunidade de alcançar todos os dias na sua pequena mercearia.

O menino “Lino” – diminutivo de ‘Anjolino’, nome com o qual será longamente chamado em família e pelos amigos – recebe como herança pelos pais esse rico patrimônio de formação humana e cristã. Nos primeiros anos de sua vida, olhando ao seu redor durante os momentos de brincadeiras e distensão com sua querida irmã Maria, aperfeiçoa em si o que os pais lhe ensinaram: aprende a dar grande valor aos sentimentos e afetos. Sua vida ilumina-se graças à vocação sacerdotal, que aconteceu como uma chamada de Jesus desde seu primeiro compromisso como coroinha.

Com onze anos, Lino entra no Seminário Diocesano de Cremona. Aqui descobre um outro chamado à vida religiosa consagrada, que percebe poder realizar como missionário, e assim falar de Jesus e testemunhá-lo melhor entre quantos ainda não o conhecem. Quando parte para a China o concidadão padre Antônio Aliprándi, Lino tem a confirmação da estrada a percorrer em sua vida. A emoção experimentada naquele momento torna-se um grande desejo, alimentado também pela leitura de revistas missionárias que tem a oportunidade de encontrar no Seminário. Por meio dessa imprensa, o seminarista Lino vem a conhecer com maior clareza o estilo de vida dos Xaverianos, a família missionária fundada na vizinha cidade de Parma, no ano de 1895, pelo santo Bispo Guido Maria Conforti, há pouco falecido.

TENTANDO UM RESUMO

Graças a Deus, nos arquivos da Congregação Xaveriana encontramos uma vasta documentação sobre o caminho de dom Ângelo Frosi. É aqui que atingimos numerosas informações biográficas.

As atitudes de humildade e simplicidade eram patrimônio histórico da família Frosi, em San Bassano, na Itália. O casal Alfredo e Éster vinham formando um lar cristão, onde a sinceridade e a fraternidade eram características marcantes. O desejo do jovem Alfredo de ser padre se juntou com a espiritualidade da jovem Éster: os dois viviam de fé, visando só a bondade.

O menino “Lino” herdou dos seus pais todo este rico e precioso patrimônio de formação humana e cristã. Nos primeiros anos de sua vida, olhando ao seu redor, ele aprendeu a valorizar e aperfeiçoar os ensinamentos de seus pais; passou a afinar os sentimentos e a purificar os afetos no espelho das trilhas da vocação sacerdotal apostólica, que Cristo Jesus semeara no seu coração sincero e disponível de fervoroso coroinha. Aos pés do altar, servindo a Santa Missa, nasceu a sua vocação ao sacerdócio.

Esta vocação originara-se nele durante a festa da saída para a China do seu conterrâneo, o xaveriano padre Antonio Aliprandi. A comoção experimentada naquela ocasião, apesar de Lino ser ainda uma criança, se tornava agora anseio apostólico mais urgente por causa da literatura missionária que ele iniciou manusear no seminário. Foi assim que decidiu entrar a fazer parte da Família Xaveriana.

Uma vez entrado entre os Xaverianos, Lino Frosi se formou com muito zelo em vista de uma consagração a Deus para o anúncio do Evangelho entre os que ainda não conhece o amor de Deus, a fim de salvar as almas dos não cristãos.

Lino é enviado nos Estados Unidos

Quando o jovem estudante xaveriano cursava o terceiro ano de teologia em Parma, onde entrou dia 10 de Agosto de 1940, experimentou os horrores da Segunda Guerra Mundial. Enquanto se preparava junto com outros colegas, que partilhavam o mesmo ideal missionário, os estudantes foram transferidos para os Apeninos parmenses, a fim de fugir dos bombardeios que aconteciam na cidade de Parma. O sonho do estudante Ângelo agora é ser um dia missionário na China, onde já se encontra o padre Antônio. Ou ainda no Tibet, onde os primeiros xaverianos estão colocando o pé, exatamente naqueles meses do ano de 1947.

Mas a providência decide diversamente: Lino é escolhido pelos superiores para continuar seus estudos em outro lugar, nos Estados Unidos, onde os filhos de dom Conforti, expulsos da China, estão dando início a uma presença xaveriana. Para ele foi dolorosa aquela decisão de deixar sua terra, sua família, exatamente dois anos antes de receber as ordens sacerdotais. Porém, mesmo com o coração partido, deixou a sua Itália de navio e foi para a nova destinação: os EUA.

Ângelo Frosi nos Estados Unidos

Foi nos EUA que Lino terminou a formação escolástica e foi ordenado padre, dia 06 de maio de 1948. A partir de então, o nosso Lino passou a ser chamado: padre Ângelo Frosi.

Sua primeira preocupação foi iniciar logo a realizar o que sonhara por longos anos e estava bem enraizado no seu coração: ser sacerdote, santo, verdadeiro apóstolo, testemunha de Jesus, vítima voluntária de expiação, com a finalidade de santificar os fiéis que a Providência lhe teria confiado.

Esse foi e sonho do padre Frosi nos vinte anos de atuação missionária nos Estados Unidos. Foram anos vividos com generosidade e fraternidade, não poupando as suas energias. A fraternidade, a partir do Evangelho e também da herança deixada aos Xaverianos pelo Fundador, foi o marco da sua atividade especialmente na Comunidade de estudantes e padres xaverianos. “Cenáculo Xaveriano” ele gostava de chamar a comunidade de Holliston, onde ele viveu muitos anos como animador e formador no meio dos confrades. “Nós aqui trabalhamos com o coração nas missões”, ele escreve nas suas cartas para a Casa Mãe Xaveriana em Parma, realidade que para ele é espelho de vida e amparo afetivo nas provas do dia-a-dia.

Mas também no meio das comunidades paroquiais onde era chamado a exercer seu ministério, sentia-se verdadeiro missionário, semeando a fé e incentivando a abrir o coração ao mundo inteiro, para fazer de toda a humanidade uma só família em Cristo.

De olhos abertos à realidade conjuntural que na Igreja de então estava bem mudando – eram os anos do Concílio Vaticano Segundo! – ele acreditou que o exemplo era o meio mais convincente durante os seis anos de mandato como Superior Regional dos Xaverianos dos EUA. Não faltaram também pequenos desentendimentos, mas tudo superou no perdão e na maior fraternidade. Afinal, a caridade devia iluminar todo seu relacionamento com os irmãos.

Prelado na Amazônia

Este seu amor paterno, este zelo apostólico, chamaram a atenção dos Superiores Xaverianos. E quando na Prelazia de Abaetetuba veio a faltar o Administrador Eclesiástico, o nome de padre Ângelo foi indicado à Santa Sé.

Foi assim que o papa Paulo VI o escolheu para ser Administrador Apostólico da Prelazia de Abaetetuba, no Brasil. Apesar de que a tarefa representasse para ele uma «cruz pesada», por causa do pulo inesperado do Norte do mundo para uma área do Sul, ele compreendeu que chegara o momento de poder dar início pleno à sua vocação missionária. Por isso, padre Ângelo, confuso por tanta responsabilidade, respondeu logo “sim” e iniciou a viver na plenitude sua vocação missionária. Poucos dias antes, o xaveriano padre João Castelli, grande amigo da família Frosi, dissera à mãe do padre Ângelo em San Bassano: «O teu filho um dia será Bispo!». São palavras que reconhecem as ricas qualidades humanas e cristãs do nosso querido padre Ângelo.

No mês de fevereiro de 1968, bem de mansinho, padre Ângelo chegou a Abaetetuba como Prelado, onde foi acolhido de braços abertos pelos padres Xaverianos e pelo povo fiel. No domingo seguinte, dia 25, na Catedral de nossa cidade, durante uma celebração, que o imenso povo presente tornou emocionante, recebeu a entrega da nova porção do povo de Deus agora a ele confiada.

Dois anos mais tarde, como já vimos, no dia 1º de Maio de 1970, era consagrado Bispo de Abaetetuba. Começou a ser o “dom Ângelo de Abaetetuba”, que muitos de nós puderam conhecer, amar, apreciar e respeitar, beneficiando de sua paterna e delicada presença.

A noitinha desse memorável dia foi coroada pelo significativo gesto de inauguração do “Centro Médico Nossa Senhora da Conceição”, confiado às Irmãs Missionárias de Maria. E quando a sua irmã Maria, que lhe perguntou onde encontrasse a energia para enfrentar fadigas tão diferentes das encontradas nos Estados Unidos, ele respondeu com tom profético: «Afinal: eu quero viver e morrer aqui!».

Como o povo recebeu seu Bispo?

Os depoimentos que conseguimos gravar no meio daquelas pessoas que foram, e são ainda hoje, o povo que Deus entregou aos seus cuidados de prelado e, depois, bispo, batem com a atividade toda que ele desenvolveu, sem se poupar nos vinte e sete anos de estadia na área amazônica brasileira abaetetubense do Pará.

A primeira década, desde a sua chegada em fevereiro de 1968 até os anos oitenta, foi marcada pelos reflexos da feliz primavera conciliar e as relativas disputas provocadas pelos contestadores do ano de 1968. No ambiente abaetetubense, dom Ângelo não teve medo de ser julgado ‘conservador’, ‘cara fachada’ e até ‘fraco demais’. Ele foi pegar forças na história, que era a matéria da sua especialização acadêmica: na medida em que uns agentes pastorais, e até padres, acreditavam nos ideais da teologia da libertação, só entendida como assunto ideológico, ele apostou na formação cristã das pessoas; sabia como um cristão fiel, capaz de tudo se sacrificar em favor da justiça, das bem-aventuranças evangélicas vividas na humildade do dia-a-dia, era o alicerce mais precioso para implantar o Reino de Deus por meio da participação eclesial. Foi também naqueles anos que providenciou, para a jovem prelazia de Abaetetuba, as infra-estruturas básicas, seja para as reuniões da comunidade cristã, que para a formação: destaca-se, nesta primeira década, a implantação do Centro de Formação Cristã, no Laranjal, no janeiro de 1975.

Formação das bases e Vocações

A segunda e terceira década de dom Ângelo em Abaetetuba caracteriza-se pelo aprofundamento da formação vocacional, catequética, comunitária, evangélica e profissional, embora com caminhos diferenciados e sempre mais profundos. O povo cristão a ele entregue por Deus passou a entender sempre mais clara a vocação a ser “Povo de Deus”, “Assembléia reunida por Deus”, com tarefas diferentes para cada um. A formação ganhou sempre mais prioridade; a colaboração entre os demais ministérios na Igreja foi explorada por meio de cursos que visavam formar leigos engajados, capazes de animar as células básicas da Diocese toda, compostas pelas Comunidades Eclesiais de Base, como também por camadas diferentes de níveis pastorais.

Mas acima de tudo, dom Ângelo, tinha um grande sonho, que já fora de dom João Gazza: formar seu clero com Vocações locais. Nisso, desde o começo, foi ajudado pelos Xaverianos, como também pelas Irmãs Xaverianas e Capuchinhas. Por isso, logo que foi possível, pensou na implantação dos Seminários Menor, em Abaetetuba, dedicado a Nossa Senhora de Guadalupe, e o Seminário Maior, em Belém, dedicado à memória de dom Oscar Romero. Isso constitui o marco que expressa toda a maturidade da Igreja de Deus que está em Abaetetuba. Estes foram a ‘menina dos olhos’ de dom Ângelo. Acompanhava com atenção a formação de cada seminarista, passando vários dias com eles. Quando morreu, podia contar com seis Sacerdotes Diocesanos.

“Fé e Caridade” acima de tudo

Não podemos esquecer que o lema do Bispo dom Ângelo Frosi foi “Fé e Caridade”. Uma profunda fé em Deus e uma intensa caridade, sempre iluminaram o caminho e o apostolado de dom Ângelo.

Porém, não se pode reduzir a atividade organizativa-estrutural de dom Ângelo, a pura atividade social. Os depoimentos têm um só refrão: ele era pessoa boa, que, com o seu jeito sereno de homem totalmente apaixonado por Deus, sabia acolher a todos, dando palavras de esperança para todos; sabia ser simples e humilde para ter tempo a dar seja à pessoa mais humilde, como às mais importantes da sociedade. É esta uma postura que pode ser chamada de santidade, aliás, de virtudes humanas e religiosas vividas no mais fiel espírito evangélico.

Os muitos testemunhos que foram recolhidos há alguns anos e que podem se encontrar no volume “De Mãos Dadas”, impresso no ano de 2004, concordam em afirmar como um refrão: «Era uma pessoa do bem caráter, caridosa, serena, totalmente apaixonada por Deus. (Isso testemunha a sua profunda fé!). Todos nós nos sentíamos acolhidos pelo seu modo de agir. Sabia oferecer palavras de esperança. Era tão simples e humilde que encontrava tempo para todo mundo, seja para os pobres e simples, como para as pessoas consideradas importantes».

Podemos, portanto resumir estas suas atitudes com uma palavra: santidade. Isto é, dom Ângelo vivia as virtudes humanas e religiosas segundo o espírito evangélico, de modo genuíno e fiel, segundo e exemplo que nos deixou Jesus Cristo. Todo mundo que o conheceu, confirma que ele se doou sem reservas para escutar e acolher a todos, tendo em consideração unicamente o bem e indicando-lhes o céu.

Moradia para os pobres

De fato, sobretudo nos últimos quinze anos da sua atuação em Abaetetuba, dom Ângelo fez da “caridade” o resumo de toda a sua vida interior: ele visou levantar da pobreza crônica as pessoas mais carentes no que diz respeito à moradia e à instrução.

No terreno que a Diocese possuía há tempo, no terreno em frente ao Laranjal, no lado esquerdo da Rodovia que leva para Belém, hoje chamado “Cristo Redentor”, ele promoveu e desejou com afinco realizar o projeto “casas para os indigentes”. Aqui gastou todas as suas energias em favor da dignidade das pessoas e das famílias, mesmo correndo o perigo que alguém aproveitasse de sua bondade.

E assim nasceu o “Bairro Cristo Redentor” que manifesta o excesso de bondade, às vezes não entendida por todos, em favor da dignidade das pessoas e das famílias. Em 1995, ano da morte de dom Ângelo, contavam-se 250 casas, dignas de se morar; ruas bem delineadas, água e energia elétrica; um Colégio, construído pela própria Diocese; um barracão comunitário, lugar de reuniões e celebrações da vida.

Com frequência dom Ângelo pegava a sua bicicleta e visitava os pobres com frequência: entrava em seu barraco, tomava cafezinho com eles, sorria e deixava sempre uma palavra de amor e esperança.

Ainda hoje muitos moradores do bairro lembram o seu refrão: “Zelem pelas suas casas...; sejam um bairro de irmãos...; vivam bem unidos...”. Isso faz de dom Ângelo uma pessoa ainda viva no meio de nós, ao nosso lado, convidando para continuarmos a caminhar todos “DE MÃOS DADAS”.

Amor fraterno e de família

Ele se preocupava muito com a acolhida dos hóspedes, especialmente dos confrades Xaverianos. Era a mesma fraternidade que tinha vivido, ainda jovem estudante e jovem padre, nos Estados Unidos. Sempre, na sua casa em Abaetetuba, lembrava que “o que é mais importante, o que tem prioridade é a caridade; os padres precisam muito disso”.

Nas suas visitas à Itália por motivo dos encontros com o Papa, dom Ângelo não esquecia de visitar os familiares dos padres que trabalhavam com ele na Prelazia de Abaeté.

Percorrendo com a vista seus diários pessoais, onde ele marcava todo dia o lugar onde celebrava a Missa cotidiana, podem-se acompanhar suas visitas aos pais, irmãos, parentes e benfeitores de seus padres e irmãs. Embora isso comportasse longas viagens de cidade em cidade ou aldeias, de norte a sul da Itália, nunca desistiu. A motivação era sempre a mesma: “Caridade antes de tudo”.

Sempre frisando essa preocupação de dom Ângelo para com a fraternidade vivida com os irmãos de vida e seus familiares, temos muitas cartas dele, escritas aos xaverianos que foram chamados de volta para trabalharem na Itália. Dom Ângelo expressa nelas a preocupação de um pai e de um irmão, convidando a entender que é mais importante fazer a vontade de Deus, do que trabalhar nas áreas assim chamadas missionárias.

Quantas vezes ele sublinha isso nas cartas enviadas àquele afamado homem – superconhecido em Abaetetuba, nos anos setenta e oitenta – o padre Luizão Terzoni, que encontrava-se na Itália! Este morria de saudade por Abaetetuba, mas a saúde impedia-lhe de voltar. A ele escreve dom Ângelo:

“…Entendo muito bem seu sofrimento profundo, levando em conta seu íntimo amor para esta porção da Igreja de Deus que fica em Abaeté. Quanto você tem se sacrificado em prol do crescimento da Prelazia ao longo destes anos todos! Seu pranto derramado nesses dias, sem falta vai regar o campo espiritual da Prelazia com o mesmo valor da cruz, daquela cruz que faz crescer o Reino de Deus e faz a boa semente produzir frutos. Tenho certeza de que você sabe encontrar conforto naquela fé que animou toda a sua vida e pela qual tudo, especialmente o sofrimento, torna-se benefício para o povo de Deus”.

(Carta escrita de Abaetetuba, em 30 de junho de 1981).

As Irmãs Xaverianas na Prelazia/Diocese

Desde que padre Ângelo atuava nos Estados Unidos, as Irmãs Xaverianas abriram a primeira fundação no estrangeiro, na mesma terra onde nascera a Fudadora Madre Celestina. Isso se deu no ano de 1954. Em seguida, padre Lino sempre acompanhou a presença delas pelo mundo afora. Quando ele veio para o Brasil, viu com muita alegria que as Xaverianas já atuavam na área desde o mês de julho de 1966. Elas tinham sido convidadas pelo primeiro prelado da Prelazia e superior dos Xaverianos atuantes no Pará, o saudoso Dom João Gazza (1924-1998), para trabalharem, sobretudo no campo da saúde e da pastoral, dando especial atenção à mulher gestante.

Dom João Gazza, vendo as necessidades de sua Prelazia, convidara as Irmãs Xaverianas para assumirem sua missão em Abaetetuba.

Assim, quando Dom Ângelo chegou a Abaetetuba, encontrou as Irmãs já trabalhando no Centro Médico e no apostolado. Desde o começo, ele foi dando-lhes todo seu apoio e colaboração. Sempre as acompanhou de perto, até na sua vida religiosa. Várias vezes presenciou as celebrações da congregação, e muitas vezes presidiu às cerimônias da profissão das novas xaverianas paraenses.

Toda vez que sua irmã Maria veio visitar dom Ângelo, ficou hospedada na casa das Xaverianas, em Abaetetuba. Lembra a Maria Frosi: “Quando esteve em Abaetetuba no ano 1970, logo as Irmãs Xaverianas me disseram: “Seu irmão Ângelo fez um pulo enorme, passando dos EUA até aqui! Porém ele se entrosou logo, com todo mundo”.

Também Dom Ângelo. nas suas viagens à Itália, nunca deixou de visitar a casa das Xaverianas, quer na Casa Mãe delas em Parma, sobretudo até que viveu a Madre Celestina, quer também na casa de estudos delas em Roma.

Povo em lágrimas

No começo do mês de Maio de 1995, dom Ângelo, apesar de não se sentir bem de saúde, quis participar à anual Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros, que é realizada em Itaici-SP. Mesmo não estando em boas condições físicas, tomou parte a todas as reuniões. Mas, durante a noite entre 18 e 19 de Maio sente uma forte dor no peito: trata-se de um enfarte, mas ele pensa tratar-se de outro incômodo. Não pede socorro para não incomodar. Ao amanhecer, consegue levantar-se, mas não fala com ninguém do seu problema. Celebra sentado na primeira fila, fato que chama a atenção do Presidente da Missa. Pouco depois da Comunhão, sai da capela, seguido por uma irmã de olho experto, que se dá conta logo da gravidade da coisa. O médico de plantão, um cardiologista, o encaminha logo para o hospital mais próximo: mas já se passaram horas demais para uma intervenção.

Logo é submetido às curas necessárias e a equipe médica tenta tudo para salvá-lo, mas não há reação. Fica vários dias entre a vida e a morte; depois há uma ligeira melhora, que lhe permite até deixar o hospital e hospedar-se na Casa Xaveriana mais próximo de São Paulo. Seja no hospital que em casa, é amorosamente assistido pelos confrades xaverianos e por sua irmã Maria, vinda de propósito da Itália.

Os médicos, porém, continuam pessimistas: não acreditam na possibilidade de se recuperar; aliás, dizem que, se conseguir a sobreviver, será condenado a ficar de cama o resto de sua vida, com assistência contínua, ou a viver numa cadeira de rodas.

Enquanto isso, em Abaetetuba, nas igrejas e nas casas, grupos de fiéis revezam-se em oração dia e noite. Acontece, em escala menor, quanto acontecera na Praça São Pedro, em Roma, durante a agonia do Papa João XXIII. Os fiéis pedem o milagre, mas este não entra nos planos de Deus.

Depois de uns dias, ainda passados na casa dos Xaverianos, aquela ilusória recuperação desaparece. Novamente é levado de urgência para o hospital, onde, perto do meio dia de 28 de Junho, dom Ângelo passa deste mundo para a casa do Pai.

Tristeza e lágrimas sinceras

A notícia, imediatamente comunicada à comunidade de Abaetetuba provoca profunda tristeza em todo o povo. E quando, no dia seguinte, o corpo de dom Ângelo chega de São Paulo para o aeroporto de Abaetetuba, uma multidão está aguardando, em silêncio e lágrimas. Nunca se viu algo de parecido. Milhares e milhares de pessoas caminham a pé da cidade ao aeroporto, sob o sol escaldante da tarde amazônica. São cinco quilômetro de caminhada, mas todos desejam estar presente nesse momento.

O caixão é colocado sobre um carro fúnebre preparado pelos bombeiros, que só atende as personalidades. No Bairro Cristo Redentor, há a primeira parada, com uma celebração emocionante. Os pobres choram a perda de seu grande amigo e bem-feitor. Depois a caminhada continua lentamente, rezando e cantando, até a Catedral. É uma manifestação espontânea que ninguém, mesmo querendo, poderia ter organizado.

Na Catedral é celebrada uma primeira Missa de sufrágio. Depois o povo vai se revezando a noite inteira, rezando, fazendo pedidos; tudo com o máximo respeito e gratidão. Quase todos fazem questão de tocar o caixão, como querendo acariciar o rosto do pai e amigo.

O carinhoso “adeus”

Na manhã seguinte, a Praça da catedral não pode conter a imensidão do povo que deseja tomar parte à solene concelebração presidida pelo Arcebispo de Belém, dom Vicente Joaquim Zico. Ao seu redor estão outros seis Bispos e numerosos Sacerdotes. Em sua homilia, o Arcebispo lembra a extrema bondade do defunto, sua delicadeza com todas as pessoas, a especial atenção aos pobres, a vida de absoluta pobreza, a total disponibilidade para os seus diocesanos, a cura especial para as vocações.

O povo também quer dar sua contribuição do próprio testemunho e não se cansa de prestar homenagens ao seu Pastor com cantos, poesias, episódios de sua vida. Essa manifestação carinhosa e comovida dura mais de três horas. Parece que ninguém queira se separar do seu Bispo.

Quando também a última voz se cala, os despojos, acompanhados ainda por aquela multidão em lágrimas, são conduzidos ao cemitério e colocados perto do xaveriano e inesquecível padre Mário Lanciotti, que morreu no ano de 1983. O túmulo é bem pobre, mas está no meio de tantos fiéis que o precederam no sinal da fé.

Presença perene

Sete anos após sua morte, no domingo 17 de Novembro de 2002, os despojos mortais de dom Ângelo foram transferidos do cemitério da cidade para a Catedral. Os fiéis acompanharam com flores nas mãos, rezando o terço, segurando velas acesas em sinal de fé e amor. O ataúde, carregado por alguns padres Xaverianos, numa caminhada alternada de um profundo silêncio, cantos e orações, atravessou várias ruas da cidade, fazendo uma breve parada em frente à casa onde ele morara por tantos anos, ao lado do Colégio São Francisco Xavier, que ele amou, sustentou e acompanhou com tanto carinho.

Na Catedral, lotada de fiéis, depois da Missa presidida pelo Bispo dom Flávio Giovenale, os restos mortais de dom Ângelo foram colocados num túmulo preparado de propósito, numa capelinha nova, construída ao lado esquerdo da grande Catedral. Aí os fiéis podem visitá-lo mais facilmente e rezar com incansável gratidão.

Deste humilde, mas digno ambiente, colocado bem ao lado da estátua de gloriosa Padroeira de Abaetetuba, a Virgem da Conceição, a quem dom Ângelo consagrara a inteira Diocese, continua acompanhando o caminho terreno do seu amado povo abaetetubense, e do Alto continua intercedendo em seu favor.

E os fiéis, em constante gratidão, perseveram frequentando com fervor e devoção os seus restos mortais, certos de experimentar mais uma vez a eficácia de sua presença paterna, sempre pronta a ajudar e indicar o caminho do céu.

Querido dom Ângelo, reze por nós!

Dom Ângelo agora descansa na Casa do Pai e está na glória e felicidade eterna. De lá ele pode rezar por nós e interceder junto de Maria, de quem teve tanta devoção.

Querido dom Ângelo, o povo da Diocese de Abaetetuba não lhe esqueceu, mas guarda no coração a sua memória. Lembre-se de nós, especialmente dos Padres que continuam anunciando a Boa Nova aos fiéis; peça ao Pai de enviar novas e santas Vocações, como era seu sonho e desejo; veja quantos pobres ainda batem à sua porta, pedindo ajuda e consolo. Abençoe os fiéis do Bairro Cristo Redentor, onde você é lembrado com tanto carinho.

Querido dom Ângelo, seja nosso intercessor lá no Céu, e reze para que um dia possamos nos encontrar todos juntos nos braços do Pai e da Virgem Maria.

Amém.

PARTE SEGUNDA

SEU CORAÇÃO

Achamos oportuno lembrar alguns trechos significativos tirados das cartas ou do Diário Espiritual do jovem estudante Lino Frosi. Aqui podemos admirar seu espírito de profunda fé e total confiança no Divino Amor do Pai Celeste.

San Bassano-Itália, 03/03/1940

o seminarista Ângelo, com 16 anos, escreve ao Superior dos Xaverianos a Parma:

«Reverendíssimo Padre, dirijo-me ao senhor com a certeza de que responderá com boa vontade a certas minhas dúvidas. Há muito tempo desejo ardentemente entrar num Instituto Missionário para corresponder com maior generosidade à chamada do Senhor que me convida a me doar inteiramente a Cristo e à salvação das almas».

Parma-Itália, 05/11/1945

com 21 anos, Ângelo consagra-se missionário para a vida inteira.

«Eu, Ângelo Frosi, confiando na ajuda de Deus e na sua misericórdia, nas tuas mãos, Reverendíssimo Padre, perante Deus Todo-poderoso, à Imaculada Virgem Maria, ao Bem-aventurado Francisco Xavier nosso Padroeiro, e a todos os Santos, faço voto de querer viver para sempre na pobreza, castidade e obediência na Congregação Missionária Xaveriana. Comprometo-me, ainda, a me doar inteiramente às atividades missionárias confiadas pela Santa Sé a esta mesma Congregação, segundo o espírito de suas Constituições».

Das Notas Espirituais Pessoais,

escritas nos anos 1945-1947, quando Ângelo tinha 21-23 anos:

«...Quero consagrar-me a Jesus Cristo para ser transubstanciado nele como a gota de água no cálice e então a minha vida será sangue fecundo; diversamente serei aquele miserável ser humano capaz de nada. Jesus quer que me ofereça e viva esta oferenda; nisso está minha cooperação para a salvação das almas».

«Deus me ama com um amor pessoal. O amor dele pela ovelhinha perdida é a medida com que Deus ama cada pessoa. Como a mulher do Evangelho que aposta na moeda perdida, assim Deus aposta em cada alma e a quer consigo. São três as obras primas de Deus: a Encarnação, a Maternidade Divina de Maria e a comunhão íntima da alma com Deus. O amor cresce amando».

«Minha relação com o bom Jesus, minha intimidade para com ele tem que ser só simplicidade e serenidade como se dá entre dois amigos. Gosto ficar perto dele. Não importa se não tenho palavras para lhe falar; ele me entende e sabe que eu lhe quero bem e a sua presença me transforma, me santifica, me consola e fortalece».

«Tudo no universo fala-me de Deus e tenho que aproximá-lo na alegria de me encontrar com Deus e na firmeza do seu amor por mim. Serenidade no coração; visão sobrenatural, a mais verdadeira e profunda que nada me faz ser distraído, mas tudo dá para aproximar-me de Deus e acrescer o meu amor e a sua chamada apostólica».

«Quanto mais viva, profunda e vivenciada for minha persuasão íntima do grande mal que é o pecado, tanto mais forte será o ardor da minha vocação e ardoroso o meu zelo apostólico. Preciso meditar com frequência sobre o pecado. Um missionário que não é santo, que não quer trabalhar com ardor e empenho no seu aperfeiçoamento, torna-se um fracasso e uma perda para si mesmo e para os outros. A vida dele torna-se ilusão e decepção».

«Deus me ama sempre, apesar de todas as minhas fraquezas e cobra de mim que viva perto dele; ele me quer um ardente apóstolo, preocupado com a minha salvação e com a dos infiéis».

«O missionário é o verdadeiro sacerdote de Jesus. Devo pensar nisso e nas suas implicações. Será que eu vivo isso? Se não for assim, eu sou um fracasso e toda a minha vida missionária tornar-se-á inútil».

«Em tudo o que estou fazendo agora e, um dia, nas missões, tenho que pensar que eu sou o combatente de Jesus que nunca falha, e que gosta de se sacrificar em favor de seu Divino Capitão e Mestre. Eu devo ser apaixonado por ele até me perder nele, com intensidade de amor. Neste pensamento de luta santa, eu irei agora me sacrificar com ardor e entusiasmo até ser conforme ao meu Divino Capitão. E um dia, nas missões, serei um ardente missionário em favor do Reino de Cristo. Assim, está aparecendo clara minha programação de trabalho espiritual por este ano todo, que tem que ser baseado num projeto único, claro e prático; sem isso é só conversa fiada, sem apanhar uma mosca».

«Se desejo que o Senhor me fale e me ilumine, devo tornar-me sempre mais consciente da minha pequenez e pobreza, feliz de ser assim. Assim serei rico de Jesus por meio de Maria. Satisfeito de minha pequenez e do último lugar que mereço, levarei sempre em mim e aos outros a alegria de pertencer a Jesus e de ser seu apóstolo. Quanto mais estiver desligado das coisas materiais, com verdadeiro espírito de pobreza, e tanto mais Jesus será o meu Tudo. Isso é necessário para o apóstolo que não tem absolutamente mais nada».

«Quanto fervorosa foi a preparação inspirada pelo Espírito Santo para Simeão no Templo, quando viu Jesus, o Salvador! Com que alegria e consolação exultou seu coração, e quanto amor!

Homem de pouca fé! Todos os dias, não somente vês Jesus, mas ele torna-se uma só coisa contigo na mais íntima união! É Maria que o leva para ti! Com ela e o Espírito santo passa o teu dia em preparação ao grande encontro. Medita nestas coisas!».

«Estamos na terra para conhecer, amar e servir o Senhor, o verdadeiro Bem infinito e razão de minha existência. Amá-lo com todo meu coração, com toda a minha mente, com toda a minha alma, com todas as minhas forças. São as palavras de Jesus. Que significa isso se não que se deve ser santos? Fazer de Deus, de Jesus o Tudo da vida e desapegar-se sempre mais das vaidades da terra?

E o dever de ser santos está no aproximar-se à fonte da santidade de Jesus, isto é, aumentar em nós a Graça por meio dos sacramentos e a correspondência ao Espírito Santo que deseja nos desapegar sempre mais do mundo para nos unir a Jesus.

Somente quando Jesus será o centro de todo pensamento, de todo afeto, de toda atividade, só então a gente voa no amor, e cumpre-se o mandamento de Deus e se realiza a nossa verdadeira felicidade.

Sacrifício, mortificação, desapego: assim Jesus vive e cresce na alma que foi generosa em tirar os obstáculos; assim recebem-se bem os sacramentos, primeira fonte da santidade.

Jesus em todas as coisas, Jesus em todas as ações, em todo afeto, em todo pensamento. Jesus, a aspiração, o amor, a finalidade de todo instante de minha jornada».

«O estudo é dever sagrado, essencial para um ministério apostólico fecundo. É bom fazer tesouro do tempo de estudo com verdadeiro ardor apostólico, visando a finalidade da vocação missionária, recuperando o tempo perdido na vida passada».

1946: Ângelo Frosi, 22 anos, cursa o terceiro ano teológico.

«...Tenho que me avaliar com frequência sobre os meus deveres e sobre aqueles aspectos da vida espiritual onde mais preciso melhorar.

Nas minhas meditações e propósitos vou insistir frequentemente sobre a humildade.

A Verônica do Evangelho confortou Jesus na hora do ódio, isolamento e dor, enxugando seu rosto adorável. Jesus a presenteou com a imagem do seu rosto.

Por muitíssimas razões de agradecimento ao amor misericordioso de Jesus tenho que ser e quero ser uma alma “reparadora”, consolando a Jesus com uma vida vivida toda para Ele. Só então a sua imagem de Redentor se formará no meu coração, e eu serei um verdadeiro apóstolo testemunha de Jesus.

Meu ardor apostólico será centuplicado.

Percebo como seja tudo isso que Jesus cobra de mim: que eu me entregue a Ele como vítima da reparação. Eis-me aqui, ó Jesus. Que eu seja fiel e perseverante até a morte!»

Outubro de 1946

«O Senhor me levou logo a sério, com a realização da minha entrega total a ele na consagração da minha vida, dando-me a visão mais real da minha vida e da minha missão.

Pediu-me o maior sacrifício que podia pedir, por tantas razões: a saída para a América, só dois anos antes do Sacerdócio!

Ó Senhor, eis-me aqui, pronto para adorar a tua santa vontade! Vejo na minha vida a tua mão paterna que me conduz ao meu verdadeiro bem, pela tua glória e pela salvação dos infiéis.

A maior paz e alegria agora estão tomando conta do meu coração. Quer que eu fique aqui, quer que viaje para as missões, estou igualmente feliz. Em qualquer situação me encontre, que eu saiba ser perseverante na busca de Ti e no viver somente de Ti, sem nenhuma falsa aparência; que eu saiba viver conforme o espírito da minha vocação apostólica e no amor à minha Congregação à qual entendo entregar, com prazer, todas as minhas energias».

Novembro de 1946

«A misericórdia de Deus tem que ficar gravada em profundeza no meu espírito, para que eu possa me entregar com total confiança nele e ser capaz de vivê-la na perfeição em benefício de todos.

Devo ser agradecido a todos os que, de qualquer maneira, me causam sofrimento, pois assim me proporcionam a oportunidade de satisfazer a minha dívida para com a misericórdia divina. Sendo que eu não tenho o que dar em troca a Deus pela sua misericórdia sem fim, assim posso fazer alguma coisa entre os irmãos, filhos de Deus. Gratidão sincera e profunda: era assim que os Mártires abraçavam seus carrascos e rezavam por eles. Eis o outro elemento: a oração».

«O grande ideal de todo meu esforço cotidiano é procurar com todas as minhas energias a fazer que Jesus seja o centro concreto de todo pensamento, afeto, obra, e de agir somente inspirado por princípios sobrenaturais: tudo isso em vista do meu próximo Sacerdócio».

«Bons Sacerdotes já há muitos; o que falta são os Sacerdotes santos, comprometidos até o fundo em cada coisa boa e santa».

Janeiro de 1947

«...Ofereci todas as minhas forças ao Senhor em prol da causa missionária. Com o desejo de viver meu amor para Ele, tenciono me doar em prol dos irmãos mais carentes que Ele quer salvos.

Mas quanta incoerência entre o meu ideal missionário e a minha vida! Se tudo doei, tenho que tudo doar novamente em cada momento, no “morrer cotidiano” do dia-a-dia. Só visando a perfeição em cada coisa, irei ser fiel à minha responsabilidade. Grandes coisas tenho a fazer em prol das almas e da Congregação.

Na união mais intima e sincera com Deus, em cada momento da vida, encontra-se o segredo para uma vida fervorosa; procurando e amando de ser o último, feliz que só Jesus triunfe em tudo, consiste o segredo daquela paz interior na qual Deus fala à alma».

«...O ministério de um apóstolo que não é santo será mais ou menos estéril: sem humildade, nunca seremos santos. A humildade tem que brotar da percepção profunda de minha pequenez, que tem que ser total e, sobretudo, interior. Para um grande pecador, que presente imerecidíssimo foi a vocação! Ó bom Jesus, tem misericórdia de mim!»

«...Aos humildes, aos simples e aos sofredores Deus olha e doa as maiores graças; por meio dos simples, dos humildes, dos sofredores Deus realiza as maiores coisas.

Tudo isso ele costuma realizar, como se vê muito bem na vida dos Santos; são as bem-aventuranças. O ser humano tem que se humilhar e diminuir até que seu lado natural desapareça e viva só o seu lado sobrenatural: Jesus e Maria nele.

Maria é a Mãe, a doadora das graças, aquela que me conduzirá ao Altar de Deus e garantirá a minha vida Sacerdotal».

Fevereiro de 1947

«Há 23 anos que sou filho de Deus, templo do Espírito Santo, morada da Santíssima Trindade! As realidades sobrenaturais são grandiosas e inexprimíveis. O Deus, centro de todo o universo, glória e felicidade do Paraíso, meta de todo homem, por muitos anos foi íntimo à minha alma, que ama de um amor eterno. Pai! Mas eu fui e sou verdadeiro filho, devoto e agradecido?»

Março de 1947

«...Sozinho com o Deus Sozinho. Tenho que me esvaziar porque Jesus quer tudo.

Tenho que chegar até Ele com fé pura, sem aproveitar de meios humanos demais que visam satisfazer meu sentimento e deixam acomodar-me na consolação sensível.

Ó querido São José, dá vigor e força à minha vontade e torna-me igual a ti, inteiramente dedicado a Jesus!»

«A participação à Paixão de Jesus torna-se necessária para o Apóstolo. Para mim há motivações ainda maiores: a reparação e o agradecimento. Que bom se estes sentimentos fossem vividos por mim com intensidade sobrenatural! Quanto mais preciosa se tornaria a minha vida! Eu poderia mergulhar com humildade e confiança na infinita bondade de Deus, e minha vocação se tornaria mais vigorosa. A Virgem das Dores abra meu olhar e faça entender essas grandes verdades. Ó Jesus, meu amor!»

Abril de 1947

«A humildade é o segredo da paz, tão necessária para o trabalho interior feito com simplicidade e entrega confiante em Jesus; tanto mais necessária para quem escolheu viver só apaixonado pela preocupação apostólica de Jesus: salvar as almas, a custa de si mesmo, desde as maiores humilhações até os sacrifícios.

Tudo animar, ficar contente com os outros que saibam fazer amar melhor a Jesus, sempre se escondendo somente em Deus!»

Maio de 1947

«Maria, Mãe de Jesus e Mãe nossa, fazei-nos santos!

Ela formará em mim Jesus junto com o Espírito Santo. Preciso tanto disso! O dia do Sacerdócio aproxima-se. Em mim deve acontecer uma mudança total: que nada mais haja de humano nas minhas intenções, nos maus afetos, nas minhas obras. Sinto uma atração crescente para aquela dimensão sobrenatural onde devo viver, e que é a vida íntima e familiar com Jesus, o Espírito Santo e Nossa Senhora...

Ó Virgem Imaculada, torna-me teu filho devoto!».

Julho de 1947

«Obrigado, ó meu Deus, pelas preciosas graças que a tua infinita misericórdia dignou-se conceder-me durante este retiro: se por um lado foi duro para a minha natureza, tornou-se precioso para o meu espírito.

Nunca, como neste retiro, percebi os altos vértices que devo alcançar: notei com clareza a nudez da cruz, as renúncias que vêm sendo cobradas de mim. Se por um lado minha natureza estremecia e sangrava, por outro lado a visão de Ti Crucificado e a tua infinita misericórdia me sustentavam, e ainda me sustentam. Meu Jesus, quero te amar perdidamente, a fim de que, com maior generosidade eu saiba me entregar a Ti e às almas na minha sublime vocação. Percebo toda a minha infinita miséria, fraqueza e infidelidade. Ó Minha Mãe, Virgem Santa, sustenta-me e leva-me à mais profunda união com Jesus!».

01 de Agosto de 1947

“Exatamente esta manhã, no encerramento do Retiro, o Senhor me fez uma grande graça de predileção: pela boca do Papa, me pediu o maior sacrifício que eu podia lhe oferecer: por falta da idade exigida, não serei ordenado Sacerdote, antes de viajar para a América.

Minha vida será marcada, de um jeito todo especial, pela cruz, sinal de predileção e de apostólica fecundidade. Percebo assim que o Senhor vem me conduzindo por caminhos admiráveis, preparando-me a realizar o maior desejo da minha vida: partir missionário para o Tibet. Não sei se conseguirei e quando: mas sinto que conseguirei! A Virgem Branca guia os meus passos...!»

San Bassano-Itália, 22/09/1947,

O estudante Ângelo, que está partindo para os EUA, escreve ao Superior de Parma:

«Apresso-me a tornar conhecidas as ótimas e verdadeiramente cristãs disposições dos meus pais, que, mesmo sendo a minha partida seu maior sacrifício, o oferecem com generosidade a Deus.

O Senhor nos ajudou muito nessas horas de dor e eu senti quanto mais se realizar em mim o que prometi ao Senhor: ser vítima voluntária pela conversão daqueles que ainda não o conhecem.

Se o Senhor nos prova tanto assim, vejo nisso um sinal de sua particular bênção na minha vida missionária. Se a nossa natureza sente tão forte a separação à véspera da Ordenação Sacerdotal, nosso espírito canta com gratidão ao bom Jesus e à Mãe Celeste que nos chamaram a uma tão grande vocação».

Nea Hellas, 25/10/1947

Do navio em viagem para os EUA, Ângelo escreve ao Superior de Parma:

«Parto de boa vontade, certo de realizar a vontade de Deus e cumprir em seguida, por caminhos desconhecidos, os meus grandes desejos missionários. Parto com boa disposição, apesar do sacrifício que experimento na minha natureza, também pensando nos meus pais. Na estação de Roma, antes de eu partir, o meu pai quis me dar sua bênção: parecia-me ser um protagonista de alguns episódios do Antigo Testamento, no qual se oferecia a vítima ao Eterno Pai».

Última atualização em Qui, 05 de Julho de 2012 13:20